“A palavra e suas classes”
“Por ora, o caminho que resta ao professor é estar sensível às limitações do modelo tradicional herdado da análise das línguas clássicas. Em nível universitário, a tarefa central do professor é investigar esse modelo em sua natureza e limitações; no 2º grau simplesmente chamar a atenção para essas limitações; no 1 grau apresentar, sem envolvimento crítico, o modelo, evitando, porém, certas definições viciosas que, exclusivamente baseadas no significado, têm pouca abrangência.”
Trata-se de fato de uma proposta polêmica essa de Azeredo. Pois, como professores atuantes, sabemos que o modelo tradicional de análise da língua não dá conta de explicar tudo e, pior, possui definições as quais podem ser usadas e compreendidas indevidamente. Como é o caso, por exemplo, do artigo “o”, citado pelo próprio autor: há ocorrências em que o “o” não é apenas indicador de gênero do substantivo, conforme define o modelo tradicional, mas assume também papel de pronome demonstrativo que varia em gênero, número e apresenta forma neutra como a série “isto, isso, aquilo o são das séries encabeçadas por este, esse e aquele”.
Diante de tal problemática observável nos textos lidos pelos alunos, isto é, na língua em uso, a questão é quando polemizar.
Pensamos que o modelo tradicional deve ser apresentado ao estudante em algum momento de sua vida escolar. Seja no início ou no final do ensino obrigatório.
Se a escolha for pelo início, corremos o risco de os alunos não conseguirem transferir o conhecimento para os textos (lidos e escritos), pois, por mais sensível que seja o professor, este deverá omitir a funcionalidade dos termos, o que trará prejuízo na construção dos sentidos do texto, bem como provocará limitações no ensino e na aprendizagem da escrita e da leitura, que, a nosso ver, deve ser o foco nessa fase da escolaridade.
Por outro lado, se a opção for pelo final do ensino obrigatório, as possibilidades de ensino e de aprendizagem serão ampliadas. Considerando que a fase inicial foi reservada para a observação do comportamento da língua, para a funcionalidade dos termos, para a construção dos sentidos do texto, o final do ensino obrigatório pode ser o momento de trazer à tona o modelo tradicional e conhecer as definições daquilo de que já se faz uso; o momento de discutir os limites destas definições diante das inúmeras possibilidades de transgressão observáveis em textos literários e não-literários, bem como utilizadas nas próprias produções.
Assim, pensamos que a proposta de Azeredo é discutível. Como já dissemos, se considerarmos a escrita e a leitura como ponto central do ensino na primeira fase do ensino obrigatório, o que importa nesse momento é observar como a língua funciona, para só então organizá-la de forma tradicional e perceber os limites que essa tradição impõe, bem como ampliar as possibilidades de transgressão para criar efeitos de sentido.